quinta-feira, janeiro 11, 2007

A cabana


Uma casa de madeira envernizada sobre as dunas da praia a cerca de 100 metros da linha de costa, o cheiro da brisa marinha inundava os meus sentidos. As traseiras da casa davam para o mar, onde se situava um grande alpendre, com entrada através das portas envidraçadas de correr do quarto.
O alpendre tinha dois degraus que acediam directamente à areia, onde eu gostava de me sentar descalço no segundo degrau a sentir a areia entre os dedos dos pés.
O dia era de Outono mas não muito frio e o sol descia sobre o mar em tons avermelhados, uma brisa fresca começava a correr ao mesmo tempo que o sol descia. Estava a beber um chá quente enquanto escutava a música que tinha posto a tocar no rádio do quarto. Tinha vestido uma camisola quente e confortável, o turbilhão de pensamentos que normalmente invade a minha cabeça tinha evaporado e eu sentia-me em paz e calmo.
Ouvi a porta do quarto correr e os teus suaves passos vinham na minha direcção. Baixaste-te e deste-me um abraço, enquanto sentia a vibração do teu respirar junto do meu ouvido, partilhei contigo aquele momento e nunca mais dele me irei esquecer.
Ás vezes as pequenas coisas fazem muito sentido quando a companhia é a ideal, porque o amor existe, por muito que a ideia contrária nos seja imposta.

Miguel Gonçalves (2001)

1 Comments:

At 2:55 p.m., Blogger van cristjan said...

(Apesar de já não ser original, uma vez que as havia escrito como resposta ao teu texto/post, aqui deixo estas linhas...)


Tempestade sobre a cabana

Nuvens túrgidas abeiram-se vindas de norte, prometendo trovoada. O Vento esconde-se por baixo das suas saias, irrequieto, fazendo cócegas… As Nuvens riem-se, pretensamente embaçadas e logo se estreitam, peito contra peito insuflado, incitadas pelo vento que as namora e as arrasta para terra.
O Mar ruge ciumento. Só no horizonte ousa abordar as etéreas filhas do poderoso Céu. Mas o horizonte é longe e breve. E intocável… Então o Mar acorda de amores impossíveis e abraça quem está sempre lá: a Terra que o envolve e recebe no seu colo farto. Para logo o libertar… porque ele sempre volta. Assim é desde o início dos tempos.
A tudo isto assistimos, ancorados um no outro no segundo degrau desse alpendre sobre a praia. Num silêncio carregado de palavras que nenhuma voz ousa conter.
As primeiras gotas de chuva lançam o aviso de tempestade que chega do mar e um trovão abre as hostilidades, estrondoso e dramático.
Voltamos para dentro. Corremos as portas envidraçadas do quarto.
Deixamos os rebentos da Natureza dialogar, exibindo briosos os seus dotes. Depressa se cansarão, enviando um solarengo arauto a declarar tréguas.
Cá dentro há paz antecipada. Cá dentro estamos em casa…


Vanda Janeiro

 

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