Voar a 10 de Janeiro

A janela fechada, um calor sintético de ar condicionada seca-me a garganta, tenho a sensação que estou fora do meu corpo, mas logo tento agarrar-me e voltar à minha cápsula.
Não sinto dor, nem frio, mas sinto o vazio. O vazio de quem não vislumbra no horizonte a sombra da loucura, mas toca-a como se a conhecesse por dentro.
O pensar em branco depois de meditar, o olhar de quem amamos parece-nos visitar. Quero sair, mas não quero mexer-me, quero sentir, mas não quero tocar, quero pairar no ar e ver os anéis do tempo a fecharem-se no cilindro translúcido que se tornou o acumular de camadas de informação.
Nunca mais verei a vida a zeros e uns, pois o binário não tem sentimentos, a reacção verdadeira trama a razão, mas apraz-me falar com o coração.
Os cães ladram e a caravana passa, eu vejo-os a passar como se o tempo para mim parasse, estarei louco ou doente, mas para mim não são gente. São como os carneiros que os badalos seguem com a tristeza de quem não voa sobre o vazio.
Gosto de voar e sonhar e não acredito na religião serei mais um perdido do pelotão, quando ficava para trás para as esculturas olhei, nunca mais irei falar mal da força que encontrei.
Os meus músculos causam-me dor, mas eu estou a rir. Não estou feliz nem triste apenas existo na escala da minha pequenez. Que me interessa isso se alguém se lembrar de mim, será a minha pequenez um egoísmo?
O opinar do ignorante e o silêncio do sábio, terá o mesmo sentido que o raspar das paredes onde se guarda a nossa existência.
A espuma das ondas sobe na areia enquanto continuo a voar, o meu tempo está parado, por isso vou apreciar o que nunca ninguém tem tempo, porque o pastor ou o cão não deixam olhar.
Não quero uivar para a lua nem para o sol cantar, quero apenas ser feliz sem ter de imitar. Estou farto de fotocópias de baixa qualidade quero plastificar os elementos da verdade.
Sei gostar e sei viver sem nunca deixar de voar, os anéis do tempo vão-se fechando na eternidade, mas o meu coração nunca deixará de falar.
Nunca precisarei de gritar, pois os sentidos de quem como eu anda a voar mesmo noutra dimensão tudo irão sonhar.
Miguel Gonçalves (2007)



